Vamos fazer nosso estudo a partir de uma notícia de jornal. Por que a partir de uma notícia ? Textos noticiosos geralmente tem um caráter temporário e instantâneo. Ele vale para aquele momento. Não é como um romance, que precisa de uma descrição de contextos e de cadeias lógicas que unem subcontextos para que faça sentido. O texto jornalístico é como uma "fotografia textual", e sua compreensão é bem mais simples, além do que trata de fatos do cotidiano, de domínio da maioria das pessoas que vivem em determinada região onde o fato mencionado se deu ou vai se dar.
A notícia
Esta notícia é da Revista de Belo Horizonte, edição Nº 3 de setembro de 1933, isto mesmo. Belo Horizonte tinha uma revista, e muito boa, onde eram publicadas até poesias.
Assunto: O próprio título já sugere o assunto. É algo relacionado ao sr. Olegário Maciel.
Contexto 1: Cuidado ao interpretar o adjunto adnominal "Presidente" no contexto de 1933 utilizando o contexto de 2012, ano em que estamos. Para entender o contexto é preciso estar na época. Como não estamos, será preciso pesquisar a biografia de Olegário Maciel.
E como fruto da pesquisa sobre a vida deste grande político, constatamos que o cargo de Governador de Estado no contexto de 2012 corresponde ao cargo chamado de Presidente Estadual.
Contexto 2: Além da grafia, o texto inicia citando "desapparecimento". Nos anos de 1930, "desaparecimento" era um termo menos chocante para dizer MORTE. Afinal, nos bons tempos da educação , do cavalheirismo e da polidez, tentava-se amenizar aquilo que é a maior fonte de dor do ser humano: a morte.
Tema: A morte de Olegário Maciel.
Tempo: O tempo do fato, no caso de textos jornalísticos, é uma data próxima à do fato. Por se tratar de uma revista semanal, provavelmente a morte se deu na semana em que a revista foi publicada, referente à sua edição. A edição é no final de uma semana. Esta edição número 3 se refere à primeira semana de setembro de 1933. A data exata é 5 de setembro de 1933.
Contexto 3: O ano de 1933 é o ano da ascensão de Hitler ao poder na Alemanha. A década de 1930 viu ocorrer uma Revolução Constitucionalista que pretendia a derrubada do governo provisório de Getúlio Vargas (ano exato: 1932).
O resumo
Embasados nos contextos, no assunto e no tema, podemos resumir a notícia anterior da seguinte forma:
Morreu o Presidente de Minas Gerais, Olegário Maciel, uma das maiores figuras da Revolução de trinta. Colocando sua foto na primeira página, esta revista está fazendo uma homenagem ao seu valor como político mineiro.
Reparem que a parte emocional e afetiva, tão desgastada quando se trata da morte de alguém, principalmente político, foi deixada de lado, pois é como se fosse uma "gordura" da carne que é o fato principal.
Hoje, a imprensa, principalmente a digital, se atém ao principal, e não a detalhes e firulas que o surfador de Internet simplesmente não lê.
Utilidade do Português
Blog da Rede Blogazine
Conteúdos com Pesquisa e Revisão
domingo, 18 de novembro de 2012
quarta-feira, 26 de outubro de 2011
Interpretação de textos complexos II - Machado de Assis
Vamos analisar outro texto de Machado de Assis, o mestre, (Capítulo IV - Dom Casmurro):
Como se trata da descrição de uma pessoa observada por quem escreve, marcamos alguns trechos referenciais:
O mais elucidador da descrição no sentido apresentado é a frase "um vagar calculado e deduzido, um silogismo [Log. 2 premissas e uma conclusão] completo, a premissa antes da consequência, a consequência antes da conclusão" . O autor encaixa o comportamento de João Dias dentro da roupa que o mesmo usava, dando-lhe coerência, e sugerindo que o mesmo deve ser uma pessoa extremamente sistemática.
Conclusão
É este o produto que deve ser retirado de uma descrição: a coerência ou não das partes, e desta forma a competência ou incompetência do autor. Conhecer o autor também ajuda a entender o que ele escreve, pois eles escrevem de duas formas:
Machado de Assis, como escritor inteligente, psicólogo (mesmo sem o diploma), possui uma agudeza de análise elevada.
Como se trata da descrição de uma pessoa observada por quem escreve, marcamos alguns trechos referenciais:
- José Dias é a pessoa descrita, portanto marcamos o seu nome com o retângulo verde. Um nome não deixa dúvidas, portanto não precisa ser explicado;
- O Rio de Janeiro é um dos locais de referência. Pode ser o local da descrição. Se não o for, pelo menos serve de referência para localização;
- O trecho cujo fundo é cinza é um pensamento de quem descreve a pessoa e o cenário. Não tem significado para nossa abordagem centrada no "objeto" sendo descrito;
- Uma descrição circunstancial do trajar da pessoa descrita. Um indivíduo pode ter vários usos de roupa, mas a roupa e a circunstância em que é usada, combinadas nos fornecem alguns traços de caráter e personalidade do mesmo;
- Característicos da pessoa descrita no momento, mais concretos do que a roupa no item 4.
O mais elucidador da descrição no sentido apresentado é a frase "um vagar calculado e deduzido, um silogismo [Log. 2 premissas e uma conclusão] completo, a premissa antes da consequência, a consequência antes da conclusão" . O autor encaixa o comportamento de João Dias dentro da roupa que o mesmo usava, dando-lhe coerência, e sugerindo que o mesmo deve ser uma pessoa extremamente sistemática.
Conclusão
É este o produto que deve ser retirado de uma descrição: a coerência ou não das partes, e desta forma a competência ou incompetência do autor. Conhecer o autor também ajuda a entender o que ele escreve, pois eles escrevem de duas formas:
- Obedecendo ao seu modo peculiar de vida;
- Exprimindo o modo de vida que almejavam ter.
Machado de Assis, como escritor inteligente, psicólogo (mesmo sem o diploma), possui uma agudeza de análise elevada.
Comprar no cartão de 2 vezes
Não, não é um artigo com conselhos de uso de cartão de crédito. É sobre um enunciado de matemática:
"Joana comprou um vestido para pagar R$ 390,00 de duas vezes no cartão de crédito."
O que você entende a partir deste enunciado ?
Não preciso perguntar ao leitor adulto, mas uma criança de 11 anos me deu a seguinte interpretação:
"Então Joana vai pagar R$ 390,00 duas vezes. O vestido custa R$ 390,00 x 2."
Fiquei estarrecido, não com a interpretação desta criança, mas com a NOSSA INCAPACIDADE de adultos, de didatas, de professores, de mestres, em apresentar os problemas da forma correta. Ao invés de entender que os dois pagamentos somados vão totalizar R$ 390,00, ela entendeu que vão ser dois pagamentos de R$ 390,00, portanto, ao final, o valor pago será o dobro, e não R% 390,00.
Nos livros só vejo os "especialistas" em ensino INVENTANDO novas terminologias para os estudantes, ao invés de apresentarem as coisas com humildade e simplicidade. Os textos de Internet, de quem quer só parecer que sabe, são exposições sem conteúdo, com excesso de métodos, regras e pobreza de substância, de resultados ou de conclusões.
Em nosso enunciado, a expressão:
é uma fonte de ambiguidade terrível.
É preciso explicar, MESMO COM O RISCO DE PARECER PROLIXO. pois quem está lendo é uma criança.
Os professores e revisores devem ter cuidado ao apresentar o universo da matemática para crianças, senão elas simplesmente vão criar e alimentar um ódio ou aversão, ou ambos, em relação à matemática. É o mau uso do português que torna, muitas vezes, a matemática tão chata e difícil.
A culpa, aqui, foi de quem escreveu tão mal, resumido, e pensando que a criança sabe o que estava pensando a pessoa que escreveu o enunciado, ou seja, um adulto arrogante.
"Joana comprou um vestido para pagar R$ 390,00 de duas vezes no cartão de crédito."
O que você entende a partir deste enunciado ?
Não preciso perguntar ao leitor adulto, mas uma criança de 11 anos me deu a seguinte interpretação:
"Então Joana vai pagar R$ 390,00 duas vezes. O vestido custa R$ 390,00 x 2."
Fiquei estarrecido, não com a interpretação desta criança, mas com a NOSSA INCAPACIDADE de adultos, de didatas, de professores, de mestres, em apresentar os problemas da forma correta. Ao invés de entender que os dois pagamentos somados vão totalizar R$ 390,00, ela entendeu que vão ser dois pagamentos de R$ 390,00, portanto, ao final, o valor pago será o dobro, e não R% 390,00.
Nos livros só vejo os "especialistas" em ensino INVENTANDO novas terminologias para os estudantes, ao invés de apresentarem as coisas com humildade e simplicidade. Os textos de Internet, de quem quer só parecer que sabe, são exposições sem conteúdo, com excesso de métodos, regras e pobreza de substância, de resultados ou de conclusões.
Em nosso enunciado, a expressão:
"de duas vezes no cartão de crédito"
é uma fonte de ambiguidade terrível.
É preciso explicar, MESMO COM O RISCO DE PARECER PROLIXO. pois quem está lendo é uma criança.
Os professores e revisores devem ter cuidado ao apresentar o universo da matemática para crianças, senão elas simplesmente vão criar e alimentar um ódio ou aversão, ou ambos, em relação à matemática. É o mau uso do português que torna, muitas vezes, a matemática tão chata e difícil.
A culpa, aqui, foi de quem escreveu tão mal, resumido, e pensando que a criança sabe o que estava pensando a pessoa que escreveu o enunciado, ou seja, um adulto arrogante.
domingo, 21 de agosto de 2011
Metáforas e Relações Binárias
O estudo de metáforas parece objeto somente de quem escreve poesia ou de quem quer se superar na prosa, mostrando muito mais que o homem comum consegue perceber.
Conceito
Metáforas são, basicamente, comparações.
Estas comparações, se diz a grosso modo, se fazem entre duas idéias. Mas a metáfora tem poderes maiores, tanto podemos dizer de comparar SISTEMAS inteiros, quanto de EXPANDIR A CAPACIDADE CEREBRAL.
O que mais fazemos em nosso pensar diário são as comparações. Mas levadas a extremos, estas comparações se transformam em metáforas que podem embasar verdadeiras teses científicas, seja na matemática, sociologia, política ou qualquer outro ramo.
Metáforas pobres e metáforas ricas
Se dizemos que o mundo é uma bola, não tem nada demais, e uma criança consegue fazê-lo. Mas se dizemos que o mundo é um laboratório de antropologia, fizemos algo melhor. Quanto mais afastados os campos do real que é a base da comparação (o mundo) e da hipótese da metáfora (laboratório), melhor é o poder da metáfora.
Um exemplo de Machado de Assis
Machado de Assis é o mestre da metáfora. Veja esta:
Com efeito, um dia de manhã, estando a passear na chácara, pendurou-se-me uma idéia no trapézio que eu tinha no cérebro.
Isto é demais. Ao invés de dizer que uma idéia surgiu em sua mente, este renomado autor, personificado em seu personagem Brás Cubas, diz que uma idéia se dependurou em um trapézio, armado em seu cérebro.
Nunca vimos algo que descrevesse tão bem este fenômeno tão efêmero, este estabelecimento tão indeterminável de uma idéia em nossa mente. e completa:
Uma vez pendurada, entrou a bracejar, a pernear, a fazer as mais arrojadas cabriolas de volatim, que é possível crer.
Este autor insuperável (ainda mais hoje com tantos autores medíocres) ainda dá um quadro de como a idéia, ao surgir em nossa mente, vai adentrando nos caminhos tortuosos ali existentes, chamando outras idéias, relacionando-as, numa explosão ou reação em cadeia.
Conclusão
Metáforas estabelecem, a princípio, uma relação binária na mente, evoluindo para relações ternárias, quaternárias, até amadurecer em ligações múltiplas com centros distantes desta idéia inicial, porém, sempre relacionados, de alguma forma, a ela.
___________________________________________
Volatim é aquele que anda ou dança em corda bamba.
Conceito
Metáforas são, basicamente, comparações.
Estas comparações, se diz a grosso modo, se fazem entre duas idéias. Mas a metáfora tem poderes maiores, tanto podemos dizer de comparar SISTEMAS inteiros, quanto de EXPANDIR A CAPACIDADE CEREBRAL.
O que mais fazemos em nosso pensar diário são as comparações. Mas levadas a extremos, estas comparações se transformam em metáforas que podem embasar verdadeiras teses científicas, seja na matemática, sociologia, política ou qualquer outro ramo.
Metáforas pobres e metáforas ricas
Se dizemos que o mundo é uma bola, não tem nada demais, e uma criança consegue fazê-lo. Mas se dizemos que o mundo é um laboratório de antropologia, fizemos algo melhor. Quanto mais afastados os campos do real que é a base da comparação (o mundo) e da hipótese da metáfora (laboratório), melhor é o poder da metáfora.
Um exemplo de Machado de Assis
Machado de Assis é o mestre da metáfora. Veja esta:
Com efeito, um dia de manhã, estando a passear na chácara, pendurou-se-me uma idéia no trapézio que eu tinha no cérebro.
Isto é demais. Ao invés de dizer que uma idéia surgiu em sua mente, este renomado autor, personificado em seu personagem Brás Cubas, diz que uma idéia se dependurou em um trapézio, armado em seu cérebro.
Nunca vimos algo que descrevesse tão bem este fenômeno tão efêmero, este estabelecimento tão indeterminável de uma idéia em nossa mente. e completa:
Uma vez pendurada, entrou a bracejar, a pernear, a fazer as mais arrojadas cabriolas de volatim, que é possível crer.
Este autor insuperável (ainda mais hoje com tantos autores medíocres) ainda dá um quadro de como a idéia, ao surgir em nossa mente, vai adentrando nos caminhos tortuosos ali existentes, chamando outras idéias, relacionando-as, numa explosão ou reação em cadeia.
Conclusão
Metáforas estabelecem, a princípio, uma relação binária na mente, evoluindo para relações ternárias, quaternárias, até amadurecer em ligações múltiplas com centros distantes desta idéia inicial, porém, sempre relacionados, de alguma forma, a ela.
___________________________________________
Volatim é aquele que anda ou dança em corda bamba.
segunda-feira, 18 de julho de 2011
Interpretação de textos complexos I - Machado de Assis
Não precisamos dizer que os textos de Machado de Assis são obras cuja compreensão só está ao alcance de alguns. Mas indo mais fundo e procurando o esclarecimento, podemos dizer que é destes textos complexos que podemos auferir a verdadeira utilidade da língua na compreensão.
Explicaremos utilizando um trecho do romance Memórias Póstumas de Brás Cubas:
A chave de uma boa interpretação é fazê-lo em relação a algo bem escrito, ou bem planejado antes de ser escrito. E o título deste trecho não deixa dúvidas quanto ao assunto tratado: uma genealogia, ou seja, relação de parentes desde as gerações anteriores à do personagem Brás Cubas.
O primeiro apoio do texto são os substantivos próprios (retângulos de borda verde). A partir destes estabelece-se a relação de parentesco.
O rebuscamento ou prolixidade
No entanto, o autor faz citações internas e particulares a respeito de cada um expondo contextos que podem deixar o leitor confuso. A estratégia deve ser apoiar-se fortemente nos substantivos próprios e detectar a quem se refere cada citação.
Vamos analisar uma citação bem prolixa para desmistificar de uma vez:
O fundador da minha família foi um certo Damião Cubas, que floresceu na primeira metade do século XVIII. Era tanoeiro de ofício, natural do Rio de Janeiro, onde teria morrido na penúria e na obscuridade, se somente exercesse a tanoaria. Mas não; fez-se lavrador, plantou, colheu, permutou o seu produto por boas e honradas patacas, até que morreu, deixando grosso cabedal a um filho, licenciado Luís Cubas.
O nome Damião Cubas (estamos nos apoiando nos substantivos próprios) está associado a fundador, à profissão de tanoeiro (tanoeiro de ofício) e nasceu no Rio de Janeiro.
Os acessórios da frase:
"onde teria morrido na penúria e na obscuridade, se somente exercesse a tanoaria. Mas não; fez-se lavrador, plantou, colheu, permutou o seu produto por boas e honradas patacas"
podem ser quase desprezados, pois representam conjecturas "onde teria morrido na penúria e na obscuridade, se somente exercesse a tanoaria" fruto de uma compulsão dos autores a fazer jorrar suas emoções nos textos, dando enorme dor de cabeça aos leitores. O que ele fez também " fez-se lavrador, plantou, colheu, permutou o seu produto por boas e honradas patacas" não é importante para a genealogia e sim para uma talvez posterior investigação sobre o que ele fez em vida.
Ora, quem em sua vida não troca trabalho (fez-se lavrador, plantou, colheu) por salário (boas e honradas patacas) ?
Esta última colocação do autor é tão óbvia que não precisaria ser citada. No entanto, Machado de Assis o faz com estilo, pois um texto não é só informação mas beleza estilística.
O que captar e o que não captar
Se o título é genealogia, pelo menos as relações de parentesco o leitor tem que entender, bem como o local de nascimento de cada um. Já os rebuscamentos da vida de cada um não é tão importante numa primeira análise.
Colocamos na figura o restante do texto para que o leitor possa terminar a análise e decidir o que é e o que não é importante para uma análise da genealogia.
Veja o segundo exemplo, também com texto de Machado de Assis.
Parte III
Explicaremos utilizando um trecho do romance Memórias Póstumas de Brás Cubas:
O primeiro apoio do texto são os substantivos próprios (retângulos de borda verde). A partir destes estabelece-se a relação de parentesco.
O rebuscamento ou prolixidade
No entanto, o autor faz citações internas e particulares a respeito de cada um expondo contextos que podem deixar o leitor confuso. A estratégia deve ser apoiar-se fortemente nos substantivos próprios e detectar a quem se refere cada citação.
Vamos analisar uma citação bem prolixa para desmistificar de uma vez:
O fundador da minha família foi um certo Damião Cubas, que floresceu na primeira metade do século XVIII. Era tanoeiro de ofício, natural do Rio de Janeiro, onde teria morrido na penúria e na obscuridade, se somente exercesse a tanoaria. Mas não; fez-se lavrador, plantou, colheu, permutou o seu produto por boas e honradas patacas, até que morreu, deixando grosso cabedal a um filho, licenciado Luís Cubas.
O nome Damião Cubas (estamos nos apoiando nos substantivos próprios) está associado a fundador, à profissão de tanoeiro (tanoeiro de ofício) e nasceu no Rio de Janeiro.
Os acessórios da frase:
"onde teria morrido na penúria e na obscuridade, se somente exercesse a tanoaria. Mas não; fez-se lavrador, plantou, colheu, permutou o seu produto por boas e honradas patacas"
podem ser quase desprezados, pois representam conjecturas "onde teria morrido na penúria e na obscuridade, se somente exercesse a tanoaria" fruto de uma compulsão dos autores a fazer jorrar suas emoções nos textos, dando enorme dor de cabeça aos leitores. O que ele fez também " fez-se lavrador, plantou, colheu, permutou o seu produto por boas e honradas patacas" não é importante para a genealogia e sim para uma talvez posterior investigação sobre o que ele fez em vida.
Ora, quem em sua vida não troca trabalho (fez-se lavrador, plantou, colheu) por salário (boas e honradas patacas) ?
Esta última colocação do autor é tão óbvia que não precisaria ser citada. No entanto, Machado de Assis o faz com estilo, pois um texto não é só informação mas beleza estilística.
O que captar e o que não captar
Se o título é genealogia, pelo menos as relações de parentesco o leitor tem que entender, bem como o local de nascimento de cada um. Já os rebuscamentos da vida de cada um não é tão importante numa primeira análise.
Colocamos na figura o restante do texto para que o leitor possa terminar a análise e decidir o que é e o que não é importante para uma análise da genealogia.
Veja o segundo exemplo, também com texto de Machado de Assis.
Parte III
quarta-feira, 6 de julho de 2011
O português ajuda o raciocínio
Quanto mais difícil é uma língua, quanto mais regras tem a sua gramática, maior é o crescimento da capacidade de raciocínio que ela proporciona.
A língua portuguesa possui palavras compridas, muitas preposições, muitos tempos verbais e vasto vocabulário devido à herança de vocábulos de outras línguas (grego, latim, francês, árabe e inglês adaptado) que vieram se incorporando à nossa.
Compreender e utilizar as regras do português se compara a equilibrar pratos como é visto nos circos chineses. Não se trata de uma ou duas regras, e sim numerosas regras.
Vamos supor uma situação proposta no período a seguir:
Este é o período inicial da obra de Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas. Os primeiros "pratos" que iremos equilibrar são memórias, nascimento, morte, autor defunto/defunto autor (oposição), Moisés e Pentateuco.
Temos 6 idéias, uma a menos do que é o limite conhecido de nossa memória de curta duração (conhecido como sendo 7 no total). Alguém perguntaria a você, que está preocupado em "equilibrar" estes seis pratos? Qual é a relação entre estes "pratos" que você está equilibrando ?
Então você teria que escolher alguns dentre os seis para começar a explicar:
As memórias são ordenadas do nascimento até a morte, pois este é o caminho natural do ser humano em sua estadia na terra. Neste ponto, poderíamos não mais nos lembrar dos demais pratos. Este é o problema da memória de curta duração. Por isto, para guardar as situações na memória, é preciso "pintar" um quadro na cabeça, imaginando uma linha desta forma:
Bem mais fácil de guardar como uma relação.
Voltando aos "pratos", temos uma:
Oposição
Autor defunto/defunto autor
Esta operação mental da oposição será melhor explicada no Blog do Cérebro, mas podemos dizer aqui que as oposições, quando expressas na linguagem, provocam uma reação de surpresa e até de risos no ser humano, por sua originalidade e pela forma inesperada pela inversão da ordem dos elementos, e consequentemente da alteração sintática dos termos na frase (defunto passa de artigo para substantivo). O cérebro se agrada deste tipo de coisa que é bem explorada pelos humoristas e autores espirituosos.
Pessoa/Posse
Os "pratos" Moisés e Pentateuco perfazem a relação Coisa/Possuidor, ou Autor/Obra. Como a palavra "autor" aparece duas vezes no texto, ficaríamos com Autor/Obra.
Relação das Relações
Depois das relações individuais serem resolvidas, vamos ver como todas estas relações se encaixam, ou seja, como todas estas relações formam um quadro aceitável para a mente:
Conclusão
Portanto, quem conhece as regras do português e as usa no momento certo, sem absurdos exagerados, expande sua mente e melhora a sua memória, seu conhecimento da língua e raciocina melhor, fazendo mais relacionamentos entre as coisas logicamente relacionadas ou não.
A língua portuguesa possui palavras compridas, muitas preposições, muitos tempos verbais e vasto vocabulário devido à herança de vocábulos de outras línguas (grego, latim, francês, árabe e inglês adaptado) que vieram se incorporando à nossa.
Compreender e utilizar as regras do português se compara a equilibrar pratos como é visto nos circos chineses. Não se trata de uma ou duas regras, e sim numerosas regras.
Vamos supor uma situação proposta no período a seguir:
Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou
pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a
minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento,
duas considerações me levaram a adotar diferente método: a
primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um
defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que
o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que também
contou a sua morte, não a pôs no intróito, mas no cabo: diferença
radical entre este livro e o Pentateuco.
pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a
minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento,
duas considerações me levaram a adotar diferente método: a
primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um
defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que
o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que também
contou a sua morte, não a pôs no intróito, mas no cabo: diferença
radical entre este livro e o Pentateuco.
Este é o período inicial da obra de Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas. Os primeiros "pratos" que iremos equilibrar são memórias, nascimento, morte, autor defunto/defunto autor (oposição), Moisés e Pentateuco.
Temos 6 idéias, uma a menos do que é o limite conhecido de nossa memória de curta duração (conhecido como sendo 7 no total). Alguém perguntaria a você, que está preocupado em "equilibrar" estes seis pratos? Qual é a relação entre estes "pratos" que você está equilibrando ?
Então você teria que escolher alguns dentre os seis para começar a explicar:
As memórias são ordenadas do nascimento até a morte, pois este é o caminho natural do ser humano em sua estadia na terra. Neste ponto, poderíamos não mais nos lembrar dos demais pratos. Este é o problema da memória de curta duração. Por isto, para guardar as situações na memória, é preciso "pintar" um quadro na cabeça, imaginando uma linha desta forma:
Bem mais fácil de guardar como uma relação.
Voltando aos "pratos", temos uma:
Oposição
Autor defunto/defunto autor
Esta operação mental da oposição será melhor explicada no Blog do Cérebro, mas podemos dizer aqui que as oposições, quando expressas na linguagem, provocam uma reação de surpresa e até de risos no ser humano, por sua originalidade e pela forma inesperada pela inversão da ordem dos elementos, e consequentemente da alteração sintática dos termos na frase (defunto passa de artigo para substantivo). O cérebro se agrada deste tipo de coisa que é bem explorada pelos humoristas e autores espirituosos.
Pessoa/Posse
Os "pratos" Moisés e Pentateuco perfazem a relação Coisa/Possuidor, ou Autor/Obra. Como a palavra "autor" aparece duas vezes no texto, ficaríamos com Autor/Obra.
Relação das Relações
Depois das relações individuais serem resolvidas, vamos ver como todas estas relações se encaixam, ou seja, como todas estas relações formam um quadro aceitável para a mente:
Conclusão
Portanto, quem conhece as regras do português e as usa no momento certo, sem absurdos exagerados, expande sua mente e melhora a sua memória, seu conhecimento da língua e raciocina melhor, fazendo mais relacionamentos entre as coisas logicamente relacionadas ou não.
domingo, 3 de julho de 2011
Adjetivos, advérbios de intensidade e escala de valores
Existe um artigo interessante no blog desta mesma rede de blogs que trata do Uso dos números, ordem de grandeza e outras ciências. Neste artigo se discute a aplicação destes conceitos sobre o senso comum do ser humano, para que ele saiba quantificar o que está à sua volta, o que é muito e o que é pouco, em outras palavras.
Neste nosso blog de Utilidade do Português, vamos relacionar o que é muito, o que é pouco, o que é médio, para inserir Adjetivos e Advérbios na escala de valores para perceber as ordens de grandeza dos fenômenos.
A torneira do fogão
Por ser um eletrodoméstico comum nas residências em todo o mundo, vamos utilizar a escala da torneira de gás do forno dos fogões como ponto de partida para a compreensão de ordem de grandeza e escala de valores.
Neste nosso blog de Utilidade do Português, vamos relacionar o que é muito, o que é pouco, o que é médio, para inserir Adjetivos e Advérbios na escala de valores para perceber as ordens de grandeza dos fenômenos.
A torneira do fogão
Por ser um eletrodoméstico comum nas residências em todo o mundo, vamos utilizar a escala da torneira de gás do forno dos fogões como ponto de partida para a compreensão de ordem de grandeza e escala de valores.
Em muitos outros modelo de fogão temos um tipo de escala com base em adjetivos:
- Baixo
- Médio-baixo
- Médio
- Médio-Alto
- Alto
É neste tipo de escala que estamos interessados. Ao invés de valores, temos expressões adjetivas.
É do senso comum que uma pessoa com altura superior à nossa é chamada de alta, e uma com altura inferior é chamada de baixa. No caso do calor (e não fogo), o correto seria "fogo forte" e "fogo fraco". Ou seja, os extremos são fáceis de perceber.
Muito e Pouco
Quando nosso senso capta excesso, dizemos muito. Quando capta insuficiência, dizemos pouco. Estes são os extremos. O que fica no "meio" dos excessos é chamado de médio, média, mais ou menos, mediano, medíocre, etc.
Três medidas como escala mínima
A percepção mais primitiva do ser humano capta os excessos e a média:
pouco, médio, muito
ou
baixo, médio, alto
ou
frio, morno, quente
ou
cru, cozido, queimado
No entanto, não poderíamos nos conformar com estes poucos graus de escala de valores, pois senão a ciência não teria progredido.
A escala de 5
A escala de 5 é a que apresentamos para a torneira de gás do forno do fogão:
- Baixo
- Médio-baixo
- Médio
- Médio-Alto
- Alto
Esta é uma escala mais madura. E o que determina a "maturidade" das escalas ?
O que determina a "maturidade" de uma escala é a quantidade de intermediários que ela possui. As crianças até 7 anos compreendem bem somente as escalas de 3, e mesmo assim não se sentem muito à vontade com o médio. Crianças desta faixa etária e proximidades são muito concretas em suas avaliações.
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